terça-feira, 3 de abril de 2012

Deixe-me Dormir.

É à noite que as coisas tomam suas formas reais. É muito depois do Sol se deitar e a face pálida da Lua estampar os céus. É quando o vento canta seus lamentos e as arvores choram suas preces. É à noite que a vida se expõe de verdade. É bem depois do ocaso, e muito antes da aurora, quando o negrume espesso do céu cai sobre o telhado.
É nessa hora que a realidade toma proporções apocalipticas. Quando anos se passam antes dos minutos, quando o relógio tem pressa em se demorar. Quando a mente percebe que a realidade é dura e cruel, e que o corpo sente a incapacidade de transformar aquilo que o cerca. É quando a razão se perde nas suas anotações e nenhum sentido é encontrado em nada, e a única saída rápida e fácil é abandonar antes que se consuma.
Nestes minutos eternos a sensação de medo é tamanha que se torna sólida. Transforma-se em ódio. Pavor. Rancor. Desespero. Até parece que a própria morte se senta ao seu lado e sussurra ao seu ouvido convites amargos como fel. Por vezes os olhos até contemplam a possibilidade de aceitá-los. Os pés até sentem-se atraídos a caminhar na direção do aguilhão. A voz, como sempre, nada diz. Mas o medo supera qualquer coisa. Uma desilusão.
Horas se passaram e nada fora resolvido. O sono é como água no deserto: escasso e, quando se acha, se vai rápido. A angústia ja é tão grande quanto os problemas. Pesa. Pesa medidas dolorosas. As palavras ja se foram há muito. Se foram junto com a esperança. Junto com as forças. Junto com o Sol. Resta apenas agfora o nada. O vazio e o escuro. Talvez haja algo. Talvez haja fé. Díficil dizer que é quando não se sente mais nada. Deprimente, mas é um fato.
Se houver, meus joelhos saberão. Mas por hora, estas últimas poucas que ainda me restam, pelo amor de Deus, deixe-me dormir.

sábado, 24 de março de 2012

E nem deveria

O céu está nublado, mas eu o vejo azul. De um azul intenso, que arde os olhos.
As tentativas falharam. Eu as deixei falhar. Mesmo assim o céu está azul.
Encontro companhia em um copo de vinho, e converso comigo:

- Como você pode fazer isso, você não era assim. Você era tão melhor

- Todos falham

- Mas você não era assim...

- Agora eu sou

- Você tem que mudar, você pode mudar!

- Eu não posso voltar a ser o que era

- Por quê?

- Porque já fui longe demais, seria exaustivo voltar...

- Não te entendo

- E nem deveria...


Postado por Thami

sexta-feira, 23 de março de 2012

Em Teu Colo.

Um silencio profundo, quase palpável, inundou o quarto. A brisa fresca que entrava, acariciava as persianas fazendo-as dançar. Uma dança leve, desprovida de interesses e malícias. Olhou ao redor, e tudo parecia magicamente iluminado. Tudo claro, tudo calmo. Um caos ordenado de vistas. Então, poupou a mente de perturbações e lentamente fechou os olhos, e foi como se uma seda cor de azeviche lhe cobrisse a face, e assim permaneceu por um tempo que não soube determinar. Décadas se passaram até que o colchão lhe abraçou. Sentia-se como se deitado em um vasto lago de águas placidas. Como se flutuasse numa calmaria azul sob um céu ainda mais azul. Sentia o vento afagar seus cabelos e beijar seu corpo. Sentia-se em paz.
Paz. Não sabia o que era até que sua alma lhe contou. Ali, de olhos fechados, flutuando num universo iluminado de negro, solto como uma folha desprendida que pousa na grama, aninhado em braços de penas, mergulhado cada vez mais no profundo de seu silencio, ouviu o som doce, choroso e carente de sua alma. Ouviu o canto de seus sonhos. Ouviu suas poesias recitadas e sentiu o cheiro do orvalho fresco de seus versos. E ouviu tudo o que sua alma tinha a dizer. Ouviu todos os conselhos, todas as declarações. Ouviu seus medos, seus anseios, seus amores. Seu amor.
E conversou com seu espírito e se sentiu calmo. Conversou suas razões, conversou seus sentidos, conversou suas conversas. E ali estavam os três cantando em uníssono suas diferentes vozes. E chorou lagrimas de alegria vendo que seu corpo, sua alma e seu espiríto cantavam sobre o mesmo sonho que tiveram. Sonho de braços magros e quentes, seios pequenos nos quais podia repousar a cabeça. Sonho de olhos castanhos e labios doces como mel. Então ouviu seu nome. Uma voz calma, um tom meigo como a brisa que outrora o beijara. E sentiu então sua face formigar com o calor umido de labios que o tocavam. E o negrume se foi quando abriu os olhos e viu a face do anjo que lhe chamava.
Percebeu que sonhara. Um sonho de paz. Uma paz real. A paz que eu só hei de encontrar em teu colo.

segunda-feira, 19 de março de 2012

Árvores e lenhas


Antes de dormir, às vezes eu rezo. Sento na cama e falo com Deus. Às vezes, quando estou muito cansada, rezo deitada mesmo, por pura preguiça de um simples sentar. Tento evitar pedir coisas, pois não sei se tenho alguma dignidade para isto, mas é quase que impossível não pedir nada. Peço desculpa pela minha distancia, mas nunca me aproximo. Peço perdão pelos meus erros, mas continuo errando. Peço desculpa pelas duvidas, e também peço respostas para as mesmas, mas nunca busca-ás. Peço compreensão acima de tudo, mesmo sentindo-me ridícula por pedir tal coisa absurda. Agradeço o dia, e se o mesmo foi muito ruim, peço para que o próximo seja melhor, nem que for um pouco. Agradeço pelas pessoas, às vezes questiono as atitudes delas. Tento pedir para que sua vontade seja feita, e não a minha, mas não consigo, pois o medo de sua vontade, invade-me.

Na verdade nunca consigo não pedir nada e somente agradecer, pois o pedido mais hipócrita está em todas as orações, a compreensão.

Não sei se adianta, mas prefiro acreditar que sim. Pois se não consigo mudar minhas atitudes e meu modo de pensar, a única coisa que tenho a pedir é a compreensão. Mas é estranho, alguém que não planta árvore pedir por lenhas. Mesmo sabendo disto, continuo apenas a pedir lenhas e me desculpar por não plantar árvores. A única coisa que peço, é a compreensão.


Postado por Thami

sexta-feira, 2 de março de 2012

Subitamente

Algo em você se desfaz. Parece vigorar uma impossibilidade de enxergar, de reencontrar algo que foi fundamental e que deu sentido até então aos dias que se foram.

O medo invade e o mal – estar faz sentir-se doente o tempo todo. O corpo não responde bem. Dores e náuseas causadas pela mente. Uma súbita felicidade que faz com que tudo volte aos eixos, mas não dura mais que 12H.

Às vezes até parece que o mundo de ponta cabeça faz mais sentido, mas não há nenhum sentido. Ir ou vir: tanto faz.

Postado por Thami

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Como um barco perde o rumo ...

Abri o rack pra pegar uma garrafa de vinho, a última por sinal. Sujei minhas mãos e então pude perceber que estava escorrendo um pouco de vinho pela garrafa. Vinho vagabundo, não é nem de rolha, é de rosca mesmo. Estava quebradiço bem na boca da garrafa, bem quebradiço. Com certeza teria caído alguns vidrinhos ali dentro, mas eu não me importei.

Beber um pouco de vinho antes de dormir me faz bem, me faz adormecer mais rápido sem pensar muito, me faz ter um sono sem sonhos turbulentos.

Parece que a cada gole o muro de Berlim que há dentro de mim vai sendo derrubado, e então meus pensamentos se comunicam com aqueles que estavam do outro lado do muro, e o alivio é imediato e também dolorido.

Em um desses goles eis que sinto algo raspar minha garganta. Era um pedaço de vidro por ali se passando, mas já se foi, apenas mais uma dor no meio de tantas outras que até faz com que amenize essas ‘’outras’’.

Não conto os goles, mas uma aproximação de mais ou menos pelo 9° gole volta o ardor na garganta e então percebo que tem algo escorrendo por ela, e não era o vinho. Sangue. Era sangue.

Então me pergunto o que seria melhor: cuspir ou continuar engolindo sangue?

E após analisar esta questão já na lentidão causada pelo álcool, eis que me encontro na pergunta que me faço todos os dias. Acho que o melhor a se fazer nessa circunstancia seria cuspir, mas engolir é mais cômodo, e assim eu não vejo o sangue saindo de dentro de mim e concordo comigo mesmo que está tudo bem.

Eu realmente gostaria de cuspir, mas vou continuar bebendo, e junto com o vinho, engolindo sangue...

Postado por Thami

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Aos Teus Olhos.


Negro. Negro como o mar da meia noite. Tão escuro quanto a ultima hora antes da alvorada. Toda luz aprisionada no negro dos seus olhos. Íris cor de mel, e pupilas negras. Profundamente negras, capazes de absorver todo o meu universo. Meu mundo. Minha vida.
Na profundidade deste olhar negro, me guio para luzes tão distintas quanto as cores da aurora. Cores mil, dançantes. Me guio para sons e lugares distantes. Polisinese. Míticas divagações e introspecções são despertas ao fitá-los no negro, além de epifanias. Epifanias de quem eu sou.
Este pequeno orifício negro é onde achei o significado de tudo. Minha filosofia. Meus princípios. Os meus olhos refletidos, como um espelho revelador. E enquanto estes olhos negros me instigam, me criam, me nascem, uns outros olhos, amendoados, me cuidam, me saram, e na fusão de negro e mel, me acho amando e sendo amado.
Na missigenação das cores e dos sons, dos olhos e dos meus olhos, me acho perdido, e me encontro aconchegado em braços quentes que me aninham. Me acho assim, quem eu sou, esclarecido e iluminado, forte em meus conceitos, mas assim como sou, me acho fragil em seus braços.
E é assim, e assim será, por todas as vezes que me olhar no negro dos seus olhos, margeados po um mel, tão doce quanto meu amor por ti.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Querido Deus

Não peço nenhuma manifestação exporádica, nem nenhuma comprovação da existencia. Tampouco uma revelação onipotente que elimine todas minhas duvidas e conflitos de entendimento. Quero minha racionalidade intacta, por favor; e quanto às minhas duvidas ateísticas, deixe que os sábios estudiosos e profetas as sanem, me guiando por linhas lógicas que meu cérebro compreenda.
Não peço nada que não esteja ao Vosso alcance, recorrendo ao perdão imediato pelo sarcasmo desnecessário; velando pela minha fraqueza espiritual, e temendo pela minha sanidade mental há muito desgasta e pelo meu gênio desafortunado de virtudes, peço uma explicação simples e singular, que apenas eu poderia saber sobre os erros do passado, os erros do presente e, por que não, os erros do futuro.
Minha decadencia como ser humano compreensivel e aceitavel não é de agora. Vem de outros verões os meus devaneios sordidos e depressivos, sempre ensebados de orgulho e depreciação moral. Me ensoberbece a alma a ira, e me consome o espirito a discrepancia das partes, mas em quem colocar a culpa? Sou tão errado quanto as linguas falam? Linguas são os musculos mais compridos no homem, e por muitas vezes afiadas como espadas e venenosas como cascavéis, mas sou eu tão culpado quanto me julgam?
Em que ponto estou certo? Ou não há certo e errado? Não pode haver relativismo em assunto tão próprio. Seria como relativisar a própria existencia do homem em seus defeitos e conspirar contra o mundo. Sou tão cego que não enxergo a mim mesmo, ou o martelo e a bigorna que forjaram o meu carater me criaram belo ao outro e rude, tosco em meu proprio solo? Por que tenho abrigo seguro e confotavel em colchões de palha, empoeirados e desgostosos, e sinto repulsa da minha propria cama?
A bifurcação está posta. Que caminho tomar? O perdão é um caminho estreito, tortuoso. Um espinheiro que não pretendo conhecer antes de alcançar o conhecimento. Uma resposta tida como válida só será considerada quando minha alma sentir paz, e meu espirito sentir-se motivado novamente a trilhar os caminhos, e minha carne sentir-se sarada e novamente disposta a suportar os açoites. Por enquanto, aguardo terna e ansiosamente pela carta-resposta.
Deixarei de Lhe incomodar com minha pequenez altiva e disformidade de contexto, sempre pronto para o serviço, e claro, sempre duvidoso da verdade.
Em nome de Jesus.
Amém.